O Chicote’s de Madrid naquele tempo era um lugar tipo o “The Stork”, sem a música e as debutantes, ou o bar do Waldorf se deixassem as garotas entrar. Elas até que entravam, mas o Waldorf era um lugar para homens e elas não tinham o menor status. Pedro Chicote era o proprietário e ele tinha uma daquelas personalidades que fazem o local. Ele era um grande barman e era sempre agradável, sempre alegre, e tinha bastante astral. Astral é uma coisa rara e pouca gente consegue mantê-lo por muito tempo. E não deve ser confundido com exibicionismo. Chicote tinha astral e não era falso ou forçado. Ele também era modesto, simples e amigável. Pedro era realmente bom e agradável e ainda assim maravilhosamente eficiente como o George, o maitre do Ritz em Paris, que é talvez a melhor comparação que se pode fazer para alguém que já rodou por ai, e ele tocava um belo bar.
Naqueles dias os riquinhos esnobes de Madrid frequentavam um lugar chamado Nuevo Club e os sangue-bons iam pro Chicote’s. Muita gente ia lá que eu não gostava, como no The Stork, mas nunca estive no Chicote’s que não tenha sido agradável. Uma das razões é que lá não se discutia política. Havia cafés onde você ia só para discutir política e nada mais mas não se discutia política no Chicote’s. Porém, se falava bastante sobre os outros cinco assuntos à noite as mais belas garotas da cidade pintavam por lá e era o lugar para se começar a noite, com certeza, e a gente começou algumas belas noites lá.
Na época era o lugar onde se dava uma passada pra saber quem estava na cidade, ou pra saber onde tinham ido se estivessem fora. E se era verão, e não houvesse ninguém na cidade, você sempre podia se sentar e tomar um drinque porque os garçons eram sempre agradáveis.
Era um bar onde você não precisava puxar o saco e você podia pegar umas garotas lá. Era o melhor bar da Espanha, com certeza, e eu acho que um dos melhores bares do mundo, e todos nós que costumávamos a freqüentá-lo tínhamos um grande carinho por ele.
Era um bar onde você não precisava puxar o saco e você podia pegar umas garotas lá. Era o melhor bar da Espanha, com certeza, e eu acho que um dos melhores bares do mundo, e todos nós que costumávamos a freqüentá-lo tínhamos um grande carinho por ele.
Outra coisa é que os drinques eram maravilhosos. Se você pedisse um martini ele era feito com o melhor gin que a grana pudesse comprar, e Chicote tinha um barril de whisky que veio da Escocia que era tão melhor do que qualquer das marcas famosas que dava dó de comparar com qualquer whisky normal. Bem, quando a revolta começou, Chicote estava em San Sebastian tocando o lugar que ele tinha lá. Ele continua tocando o bar e dizem que é o melhor lugar da Espanha Franquista. Os garçons assumiram o bar de Madrid e ainda tomam conta, mas a boa bebida já era.
A maior parte dos antigos clientes do Chicote está do lado de Franco, mas alguns estão do lado do governo. Porque o Chicote era um lugar bem alegre, e porque os realmente alegres são geralmente os mais corajosos, e os mais corajosos morrem mais primeiro, uma boa parte dos antigos clientes do Chicote agora está morta. O barril de whisky já foi inteiro há alguns meses e a gente acabou o gin amarelo em Maio de 1938. Não há muito que se fazer no Chicote’s nesses dias então suponho que se Luis Delgado tivesse vindo para Madrid um pouco mais tarde e tivesse ficado longe de lá, não teria entrado naquela roubada. Mas quando ele veio para Madrid naquele mês de Maio de 1937 eles ainda tinham o gin amarelo e ainda tinham aquela água tonica de quinino. Não são coisas pelas quais você arriscaria sua vida, de forma que talvez ele apenas quisesse tomar um drinque no velho local. Conhecendo-o, e conhecendo o bar naqueles dias, era perfeitamente compreensível.
Haviam abatido uma vaca na Embaixada naquele dia e o porteiro tinha ligado para o Hotel Florida para nos dizer que havia guardado 5 quilos de carne fresca pra nós. Eu fui lá pegar em meio à névoa matinal do inverno de Madrid. Dois soldados com seus rifles estavam sentados em cadeiras do lado de fora do portão da Embaixada e a carne estava aguardando na guarita.
O porteiro disse que o corte era bom mas que a vaca era magra. Ofereci a ele umas sementes de girassol torradas e algumas pinhas do bolso de minha jaqueta e brincamos um pouco de pé do lado de fora da guarita.
Eu atravessei a cidade com a carne pesando sob meu braço. Estavam atirando por toda a Gran Via e eu entrei no Chicote’s para esperar que os tiros cessassem. O bar estava cheio e barulhento e eu sentei numa mesinha num canto contra uma janela entrincheirada com a carne num banquinho ao meu lado e bebi gin com água tonica. Foi naquela semana que descobri que eles ainda tinham água tonica. Ninguém a havia pedido desde o início da guerra e ela era o mesmo preço de antes. Os jornais vespertinos ainda não tinham saído então comprei três panfletos de uma velha. Elas custavam 10 centavos cada e eu disse para a velha que ficasse com o troco para uma peseta. Ela me disse que Deus me abençoaria. Eu duvidei mas li os três panfletos e bebi o gin tonica.
Um garcon que eu conhecia dos velhos tempos veio à mesa e disse-me algo.
“Não,” eu disse. “Não acredito.”
“Sim,” ele insistiu, meneando a bandeja e a cabeça na mesma direção. “Não olhe agora. Olha ele ali.”
“Não tenho nada a ver com isso”
“Nem eu”
“Sim,” ele insistiu, meneando a bandeja e a cabeça na mesma direção. “Não olhe agora. Olha ele ali.”
“Não tenho nada a ver com isso”
“Nem eu”
Ele se afastou e eu comprei os vespertinos que tinham acabado de chegar de uma outra velha e os li. Não havia dúvida sobre o homem que o garcon apontara. Nós dois o conhecíamos muito bem. Tudo o que eu podia pensar era: seu louco. Seu puta louco idiota.
Bem naquele momento um camarada Grego chegou e sentou-se à mesa. Ele era um capitão na Décima-Quinta Brigada que tinha sido soterrado por uma bomba aérea que havia matado outros quatro homens e tinha sido enviado para ficar em observação por um tempo e depois ser mandado para casa ou algo assim.
“Tudo bem John?” eu perguntei. “Experimenta um desses.”
“Como se chamar esse drinque, Sr. Emmunds?”
“Gin Tonica.”
“Qual tonica ser essa?”
‘Quinino. Experimente.”
“Escuta, eu não beber muito mas água de quinino boa para febre. Vou tomar pequeno.”
“O que o médico disse sobre você, John?”
“Não ter necessidade ir a médico. Estou bem. Só que ter tipo zunidos o tempo inteiro no cabeça.” “Você tem que ir ao médico, John.”
“Eu vou, é certo. Mas ele não entender. Ele diz que eu não ter documentos para internar.”
“Vou ligar pra ele,” eu disse. “Conheço os caras lá. O médico é um alemão?”
“Certo,” disse John. “Ser um alemão. Não falar inglês muito bom.”
“Como se chamar esse drinque, Sr. Emmunds?”
“Gin Tonica.”
“Qual tonica ser essa?”
‘Quinino. Experimente.”
“Escuta, eu não beber muito mas água de quinino boa para febre. Vou tomar pequeno.”
“O que o médico disse sobre você, John?”
“Não ter necessidade ir a médico. Estou bem. Só que ter tipo zunidos o tempo inteiro no cabeça.” “Você tem que ir ao médico, John.”
“Eu vou, é certo. Mas ele não entender. Ele diz que eu não ter documentos para internar.”
“Vou ligar pra ele,” eu disse. “Conheço os caras lá. O médico é um alemão?”
“Certo,” disse John. “Ser um alemão. Não falar inglês muito bom.”
Bem nesse momento veio o garcon. Ele era um velho careca de maneiras bem antiquadas que a guerra não havia mudado. Ele parecia muito preocupado.
“Eu tenho um filho na frente de batalha,” disse ele. “E tenho outro que foi morto. E agora isso.”
“Esse problema é de vocês”
“E você? Eu já te contei.”
“Eu vim aqui tomar um drinque antes de comer.”
“E eu trabalho aqui. Mas me diga.”
“Problema de vocês,” eu disse. “Não sou um político.”
“Esse problema é de vocês”
“E você? Eu já te contei.”
“Eu vim aqui tomar um drinque antes de comer.”
“E eu trabalho aqui. Mas me diga.”
“Problema de vocês,” eu disse. “Não sou um político.”
“Você entende espanhol, John?” perguntei ao camarada grego.
“Não, eu entender algumas palavras mas falar grego, inglês, árabe. Um dia eu falar bom árabe. Escuta, você sabe como eu ser soterrado?”
“Não. Soube que você foi soterrado. Só isso.”
Ele tinha um rosto moreno e bonito e mãos muito escuras que ele movia quando falava. Ele vinha de uma das ilhas e falava com grande intensidade.
“Bem, eu te contar agora. Sabe, eu ter muita experiência em guerra. Antes eu ser capitão no exército grego também. Eu ser bom soldado. Então quando eu ver avião chegar de lá quando estou nas trincheiras em Fuentes del Ebro eu olhar pra ele com atenção. Eu olhar para avião vindo, bang, tombar assim” (ele virou e tombou a mão), “olhar para baixo em nossa direção eu dizer, ‘a-ha. Ser para o comando. Ser feitas observações. Logo mais vir outros.’
“Então bem como eu dizer veio outros. Então eu ficar lá e olhar. Eu olhar bem. Eu olhar para cima e avisar a companhia o que acontecer. Veio três e três. Um primeiro e dois atrás. Passar um grupo de três e eu dizer para a companhia, ‘Ver? Agora passar um formação.’
“Passar os outros três e eu dizer para a companhia, ‘Agora está OK. Agora estar tudo bem. Agora nada mais preocupar.’ Esta a última coisa que eu lembrar por duas semanas.”
“Quando aconteceu?”
“Quase um mês atrás. Sabe, o meu capacete ser forcado sobre minha cara quando eu ser soterrado por bomba então eu ter ar no capacete para respirar ate me desenterrarem mas eu não saber nada disso. Mas no ar que eu respirar estar a fumaça da explosão que me deixar mal por um longo tempo. Agora estar bem, só com campainha na cabeça. Como chamar esse drinque?”
“Gin Tonica. Água Tonica Indígena Schweppes. Este bar era bastante chique antes da guerra e isso custava cinco pesetas quando eram sete pesetas cada dólar. Acabamos de descobrir que eles ainda tem a água tonica e que eles cobram o mesmo preço por ela. Só resta mais uma caixa.”
“É um bom drinque com certeza. Me conta, como era a cidade antes da guerra?”
“Boa. Tipo agora, mas com muito o que comer.”
“Então bem como eu dizer veio outros. Então eu ficar lá e olhar. Eu olhar bem. Eu olhar para cima e avisar a companhia o que acontecer. Veio três e três. Um primeiro e dois atrás. Passar um grupo de três e eu dizer para a companhia, ‘Ver? Agora passar um formação.’
“Passar os outros três e eu dizer para a companhia, ‘Agora está OK. Agora estar tudo bem. Agora nada mais preocupar.’ Esta a última coisa que eu lembrar por duas semanas.”
“Quando aconteceu?”
“Quase um mês atrás. Sabe, o meu capacete ser forcado sobre minha cara quando eu ser soterrado por bomba então eu ter ar no capacete para respirar ate me desenterrarem mas eu não saber nada disso. Mas no ar que eu respirar estar a fumaça da explosão que me deixar mal por um longo tempo. Agora estar bem, só com campainha na cabeça. Como chamar esse drinque?”
“Gin Tonica. Água Tonica Indígena Schweppes. Este bar era bastante chique antes da guerra e isso custava cinco pesetas quando eram sete pesetas cada dólar. Acabamos de descobrir que eles ainda tem a água tonica e que eles cobram o mesmo preço por ela. Só resta mais uma caixa.”
“É um bom drinque com certeza. Me conta, como era a cidade antes da guerra?”
“Boa. Tipo agora, mas com muito o que comer.”
O garcon aproximou-se e inclinou-se sobre a mesa.
“E se eu não fizer?” disse ele. “É minha responsabilidade.”
“Se você quer mesmo, vá até o telefone e ligue para este número. Anota aí.”
Ele anotou. “Pergunte pelo Pepe”, eu disse.
“Não tenho nada contra ele,” disse o garcon. “Mas é a Causa. Com certeza este homem é um perigo para a causa.”
“E os outros garçons não o reconheceram?”
“Acho que sim. Mas ninguém disse nada. Ele é um cliente antigo.”
“Eu também sou um cliente antigo.”
“Então talvez ele também esteja do nosso lado, agora.”
“Não,” eu disse. “Eu sei que ele não está.”
“Nunca delatei ninguém.”
“O problema é seu. Talvez algum outro garcon o delate.”
“Não. Só os garçons antigos o conhecem e os garçons antigos não delatam.”
“Traga mais um gim amarelo e alguns bitters,” eu disse. “Ainda tem água tonica na garrafa.”
“O que ele falar?” perguntou John. “Eu só entender um pouco.”
“Tem um cara aqui que nós dois conhecemos dos velhos tempos. Ele era um ótimo atirador e eu costumava a vê-lo nos ringues. Ele é um fascista e para ele vir aqui agora, seja por que motivo, é muita burrice. Mas ele sempre foi muito corajoso e muito estúpido.”
“Me mostre ele.”
“Ali na mesa com os pôsteres”
“Qual deles?”
“Com a cara bem marrom; o quepe sobre um dos olhos. O que está rindo agora.”
“Ele é fascista?”
“É.”
“Isso ser o mais próximo que eu ver um fascista desde Fuentes del Ebro. Ter muitos fascistas aqui?”
“Um bocado de tempos em tempos.”
“O drinque dele ser o mesmo que o seu,” disse John. “A gente beber isso outras pessoas pensar a gente fascistas, né? Escuta, você já foi para América do Sul, Costa Oeste, Magalhães?”
“Não.”
“É bom. Só que muitos polvós.”
“Muitos o que?”
“Pol-vós,” disse John. Ele pronunciava com o acento no “vós” tipo “pol-vós”. “Sabe, aquele de oito braços.”
“Oh,” eu disse. “Polvos.”
“Polvós,” disse John. “Sabe, eu também ser mergulhador. É um bom lugar para trabalhar, fazer dinheiro e tudo, apenas muitos polvós.”
“Eles te incomodavam?”
“Isso eu não sei. Primeira vez eu descer no porto de Magalhães eu ver polvós. Ele ficar de pé assim.” John colocou as pontas dos dedos sobre a mesa e ergueu as mãos, ao mesmo tempo levantando os ombros e sobrancelhas. “Ele estar de pé mais alto do que eu e ele me olhar bem no olho. Eu puxar a corda para me puxarem para cima.”
“De que tamanho ele era, John?”
“Não posso dizer com certeza porque o vidro no capacete fazer distorção um pouco. Mas somente a cabeça era mais do que 1 metro de qualquer maneira. E ele estar de pé como na ponta do pé e olhar para mim assim.” (Ele me encara bem de perto.) “Então quando eu sair da água e tirar o capacete eu dizer não descer mais. O homem na operação dizer, ‘Qual o seu problema, John? O polvó ter mais medo de você do que você ter medo do polvó.’ Eu dizer para ele ‘Impossível!’ Que tal a gente beber um pouco mais desse drinque fascista?”
“Fechado,” eu disse.
“Se você quer mesmo, vá até o telefone e ligue para este número. Anota aí.”
Ele anotou. “Pergunte pelo Pepe”, eu disse.
“Não tenho nada contra ele,” disse o garcon. “Mas é a Causa. Com certeza este homem é um perigo para a causa.”
“E os outros garçons não o reconheceram?”
“Acho que sim. Mas ninguém disse nada. Ele é um cliente antigo.”
“Eu também sou um cliente antigo.”
“Então talvez ele também esteja do nosso lado, agora.”
“Não,” eu disse. “Eu sei que ele não está.”
“Nunca delatei ninguém.”
“O problema é seu. Talvez algum outro garcon o delate.”
“Não. Só os garçons antigos o conhecem e os garçons antigos não delatam.”
“Traga mais um gim amarelo e alguns bitters,” eu disse. “Ainda tem água tonica na garrafa.”
“O que ele falar?” perguntou John. “Eu só entender um pouco.”
“Tem um cara aqui que nós dois conhecemos dos velhos tempos. Ele era um ótimo atirador e eu costumava a vê-lo nos ringues. Ele é um fascista e para ele vir aqui agora, seja por que motivo, é muita burrice. Mas ele sempre foi muito corajoso e muito estúpido.”
“Me mostre ele.”
“Ali na mesa com os pôsteres”
“Qual deles?”
“Com a cara bem marrom; o quepe sobre um dos olhos. O que está rindo agora.”
“Ele é fascista?”
“É.”
“Isso ser o mais próximo que eu ver um fascista desde Fuentes del Ebro. Ter muitos fascistas aqui?”
“Um bocado de tempos em tempos.”
“O drinque dele ser o mesmo que o seu,” disse John. “A gente beber isso outras pessoas pensar a gente fascistas, né? Escuta, você já foi para América do Sul, Costa Oeste, Magalhães?”
“Não.”
“É bom. Só que muitos polvós.”
“Muitos o que?”
“Pol-vós,” disse John. Ele pronunciava com o acento no “vós” tipo “pol-vós”. “Sabe, aquele de oito braços.”
“Oh,” eu disse. “Polvos.”
“Polvós,” disse John. “Sabe, eu também ser mergulhador. É um bom lugar para trabalhar, fazer dinheiro e tudo, apenas muitos polvós.”
“Eles te incomodavam?”
“Isso eu não sei. Primeira vez eu descer no porto de Magalhães eu ver polvós. Ele ficar de pé assim.” John colocou as pontas dos dedos sobre a mesa e ergueu as mãos, ao mesmo tempo levantando os ombros e sobrancelhas. “Ele estar de pé mais alto do que eu e ele me olhar bem no olho. Eu puxar a corda para me puxarem para cima.”
“De que tamanho ele era, John?”
“Não posso dizer com certeza porque o vidro no capacete fazer distorção um pouco. Mas somente a cabeça era mais do que 1 metro de qualquer maneira. E ele estar de pé como na ponta do pé e olhar para mim assim.” (Ele me encara bem de perto.) “Então quando eu sair da água e tirar o capacete eu dizer não descer mais. O homem na operação dizer, ‘Qual o seu problema, John? O polvó ter mais medo de você do que você ter medo do polvó.’ Eu dizer para ele ‘Impossível!’ Que tal a gente beber um pouco mais desse drinque fascista?”
“Fechado,” eu disse.
Eu olhava o homem na mesa. Seu nome era Luis Delgado e a última vez que eu o vira havia sido em 1933 praticando tiro esportivo em San Sebastian e eu lembrava de estar com ele no pódio assistindo à final do campeonato. Nós tínhamos uma aposta, mais do que eu podia apostar, e creio bem mais do que ele podia perder naquele ano, e quando ele me pagou ao descer as escadas, eu me lembrei de como ele foi agradável e de como ele fez parecer ser uma honra me pagar. Me lembrei também da gente no bar tomando um martini, e eu com aquele sentimento maravilhoso de alívio que você tem quando aposta tudo pra sair do buraco e me perguntando o quanto a aposta o havia prejudicado. Eu havia atirado mal a semana inteira e ele havia atirado divinamente mas lançado discos quase impossíveis e apostara insistentemente em si mesmo.
“Devemos apostar num duro?”
“Sim, se você quiser.”
“Por quanto?”
“Sim, se você quiser.”
“Por quanto?”
Ele tirou uma carteira olhou dentro dela e riu.
“Eu diria que por quanto você quiser,” ele disse. “Mas digamos por oito mil pesetas. É o que parece ter aqui.”
Eram quase mil dólares então.
“Bom,” eu disse, toda a calma interior partida e todo o vazio que uma aposta traz de volta, “Quem contra quem?”
“Eu te desafio.”
Nós chacoalhamos as moedas de cinco pesetas nas mãos cerradas; então cada um pos sua moeda sobre a mão esquerda, cada moeda coberta pela mão direita.
“O que você tem?” ele perguntou.
Eu abri a grande moeda de prata com o perfil de Alfonso XII como se mostrasse um bebe.
“Cara,” eu disse.
“Leva logo essas porcarias e seja gente boa e me pague um drinque.”
Ele esvaziou a carteira. “Você não gostaria de comprar uma espingarda, gostaria?”
“Não,” eu disse. “Mas olha, Luis, se você precisa de algum dinheiro...“
Eu estava segurando uma nota verde de mil pesetas bem dobrada em sua direção.
“Não seja tolo, Enrique,” ele disse. “Nós estávamos apostando, não estávamos?”
“Sim, mas a gente se conhece bem.”
“Não tão bem.”
“Certo,” eu disse. “Você é quem sabe. Então o que vais tomar?”
“Que tal um gin tonica? Sabe, é um drinque maravilhoso.”
“Bom,” eu disse, toda a calma interior partida e todo o vazio que uma aposta traz de volta, “Quem contra quem?”
“Eu te desafio.”
Nós chacoalhamos as moedas de cinco pesetas nas mãos cerradas; então cada um pos sua moeda sobre a mão esquerda, cada moeda coberta pela mão direita.
“O que você tem?” ele perguntou.
Eu abri a grande moeda de prata com o perfil de Alfonso XII como se mostrasse um bebe.
“Cara,” eu disse.
“Leva logo essas porcarias e seja gente boa e me pague um drinque.”
Ele esvaziou a carteira. “Você não gostaria de comprar uma espingarda, gostaria?”
“Não,” eu disse. “Mas olha, Luis, se você precisa de algum dinheiro...“
Eu estava segurando uma nota verde de mil pesetas bem dobrada em sua direção.
“Não seja tolo, Enrique,” ele disse. “Nós estávamos apostando, não estávamos?”
“Sim, mas a gente se conhece bem.”
“Não tão bem.”
“Certo,” eu disse. “Você é quem sabe. Então o que vais tomar?”
“Que tal um gin tonica? Sabe, é um drinque maravilhoso.”
Então tomamos um gin tonica e me senti muito mal de te-lo quebrado e me senti terrivelmente bem de ter ganho a grana, e um gin tonica nunca foi tão gostoso em toda a minha vida. Não adianta mentir sobre essas coisas ou fingir que não se gosta de ganhar; mas esse tal Luis Delgado era um belo apostador.
“Eu não acho que se as pessoas apostassem somente aquilo que elas pudessem seria muito interessante. Você acha, Enrique?”
“Não sei, nunca apostei o que podia pagar.”
“Não seja tolo. Você tem muita grana.”
“Não tenho,” eu disse. “Sério.”
“Ora, todo mundo tem grana,” ele disse. “É tudo uma questão de vender uma coisa ou outra para botar a mão nela.”
“Não tenho muito. Sério.”
“Ora, não seja tolo. Eu nunca conheci um americano que não fosse rico.”
“Não sei, nunca apostei o que podia pagar.”
“Não seja tolo. Você tem muita grana.”
“Não tenho,” eu disse. “Sério.”
“Ora, todo mundo tem grana,” ele disse. “É tudo uma questão de vender uma coisa ou outra para botar a mão nela.”
“Não tenho muito. Sério.”
“Ora, não seja tolo. Eu nunca conheci um americano que não fosse rico.”
Acho que isso era mesmo verdade. Ele não os teria conhecido no bar do Ritz ou tampouco no Chicote’s naquele tempo. E agora ele estava de volta ao Chicote’s e todos os americanos que ele iria encontrar ali agora eram do tipo que ele jamais encontraria; exceto eu, e eu era um engano. Mas eu daria muito para não te-lo visto ali.
Ainda assim, se ele queria fazer uma coisa absolutamente estúpida como esta era problema dele. Mas enquanto olhava para a mesa e relembrava os velhos tempos fiquei mal por ele e senti-me mal de ter dado ao garcon o telefone do escritório de contra-espionagem da sede do Seguridad. O garcon poderia obter o número simplesmente perguntando ao telefone. Mas eu tinha dado para ele o atalho mais curto para que Delgado fosse preso num daqueles excessos de imparcialidade, virtude e poncio-pilatismo, e aquele desejo mórbido de observar como as pessoas agem sob conflito emocional, que fazem dos escritores amigos tão atraentes.
O garcon aproximou-se.
“O que você acha?” ele perguntou.
“Eu jamais o delataria,” eu disse, agora tentando desfazer o que eu havia feito com o número de telefone. “Mas eu sou estrangeiro e esta é a sua guerra e seu problema.”
“Mas você está com a gente?”
“Absolutamente e para sempre. Mas isso não inclui delatar velhos amigos.”
“Mas e quanto a mim?”
“Para você é diferente.”
“Eu jamais o delataria,” eu disse, agora tentando desfazer o que eu havia feito com o número de telefone. “Mas eu sou estrangeiro e esta é a sua guerra e seu problema.”
“Mas você está com a gente?”
“Absolutamente e para sempre. Mas isso não inclui delatar velhos amigos.”
“Mas e quanto a mim?”
“Para você é diferente.”
Eu sabia que isso era verdade e não havia mais nada a dizer, apenas eu desejava jamais ter ouvido nada a respeito.
Minha curiosidade sobre como as pessoas agiriam neste caso já foi satisfeita a muito tempo, vergonhosamente. Virei-me para o John e não olhei para a mesa onde Luis Delgado estava sentado. Eu sabia que ele estava voando com os fascistas por mais de um ano, e ali estava ele, num uniforme legalista, conversando com três pilotos legalistas da última safra que haviam sido treinados na Franca.
Nenhum desses garotos o conheceria e eu me perguntei se ele tinha vindo para roubar um avião ou o que? Qualquer que seja o motivo pelo qual ele estava ali, ele era louco de vir ao Chicote’s agora.
“Como você se sente, John?” perguntei.
“Sentir bem,” disse John. “Ser um bom drinque, com certeza. Me faz sentir um pouco bêbado talvez. Mas bom para zunido na cabeça.”
“Sentir bem,” disse John. “Ser um bom drinque, com certeza. Me faz sentir um pouco bêbado talvez. Mas bom para zunido na cabeça.”
O garcon se aproximou. Estava bastante agitado.
“Eu o delatei,” ele disse.
“Bem então,” eu disse, “agora você não tem mais problemas”
“Não,” ele falou com orgulho. “Eu o delatei. Eles estão a caminho para apanhá-lo.”
“Vamos,” eu disse para o John. “Aqui vai rolar confusão.”
“Melhor ir então,” disse John. Já ser bastante confusão sempre acontece, mesmo que você fazer o melhor para evitar. Quanto nós dever?”
“Vocês não vão ficar?” o garcon perguntou.
“Não.”
“Mas você me deu o numero de telefone.”
“Eu sei. Mas você acaba sabendo números demais se você fica por um tempo nesta cidade.”
“Mas era meu dever.”
“Sim. Por que não? Dever é uma coisa muito forte.”
“Mas agora?”
“Bem, você se sentiu bem a respeito justo agora, não sentiu? Talvez você se sinta bem a respeito outra vez. Talvez você acabe gostando disso.”
“Você esqueceu o pacote,” disse o garcon. Ele me entregou a carne que estava embrulhada em dois envelopes que haviam trazido copias do Spur para as pilhas de revistas que se acumularam em um dos escritórios da Embaixada.
“Eu entendo,” eu disse para o garcon. “Honestamente.”
“Ele era um cliente antigo e um bom cliente. Também jamais delatei ninguém. Não delatei por prazer.”
“Também eu não devesse falar com cinismo ou brutalidade. Diga a ele que eu o delatei. Ele me odeia de qualquer maneira agora, por diferenças políticas. Ele se sentiria mal se soubesse que foi você.”
“Não. Cada homem deve assumir sua responsabilidade. Mas você entende?”
“Sim,” eu disse. Então menti. “Eu entendo e eu aprovo.”
Você tem que mentir com freqüência em uma guerra e quando você tem que mentir deve faze-lo rapidamente e o melhor possível.
Nos cumprimentamos e saí com o John. Olhei para a mesa onde se sentava Luis Delgado enquanto saia. Ele tinha um outro gin tonica na sua frente e todos na mesa estavam rindo de algo que ele disse. Ele tinha um rosto muito alegre e marrom, e olhos de atirador, e me perguntei por quem ele estava se passando.
Ele era louco de ir ao Chicote’s. Mas era o tipo de coisa que ele faria somente para depois poder se gabar quando estivesse entre os seus.
Quando saíamos e dobrávamos a esquina, um carro grande da Seguridad parou em frente ao Chicote’s e oito homens com sub-metralhadoras entraram em formação em frente à porta. Dois em trajes civis entraram. Um homem pediu os nossos documentos e quando eu disse, “Estrangeiros,” ele disse para prosseguirmos; era aquilo mesmo com certeza.
No escuro subindo a Gran Via havia muitos estilhaços novos e muita sujeira das cápsulas sob os pés. O ar estava enfumaçado e toda a rua cheirava a explosivos e granito detonado.
“Onde você ir comer?” perguntou John.
“Eu tenho alguma carne para nós, podemos cozinhá-la no quarto.”
“Eu cozinho,” disse John. “Eu bom cozinheiro. Eu lembrar o tempo que eu cozinhava num navio-“
“Vai estar bem dura,” eu disse. “Acabou de ser abatida.”
“Ah não,” disse John. “Não haver nada como um pouco de carne num guerra.”
As pessoas estavam correndo para casa no escuro vindo dos cinemas onde haviam permanecido até os tiros cassarem.
“Qual o problema daquele fascista ele vir para o bar onde o conhecem?”
“Ele foi louco de fazer isso.”
“Ser o problema com a guerra,” disse John. “Ter malucos demais.”
“John,” eu disse, “eu acho que é por aí mesmo.”
De volta ao hotel nós atravessamos a porta atrás dos sacos de areia empilhados para proteger a recepcao e eu pedi a chave, mas o porteiro disse que havia dois camaradas lá em cima no quarto tomando um banho. Ele os havia dado as chaves.
“Vai subindo, John,” eu disse. “Eu quero telefonar.”
“Eu fui até a cabine e chamei o mesmo número que dera ao garcon.
“Alo? Pepe?”
Uma voz fina soou no telefone. “Que tal Enrique?”
“Escuta, Pepe, vocês pegaram um tal de Luis Delgado no Chicote’s?”
“Si, hombre, Si. Sin novedad. Sem problemas.”
“Ele não sabe nada sobre o garcon?”
“No, hombre, no.’
“Então não diga nada. Diga que eu o delatei. Nada sobre o garcon.”
“Por que se não vai fazer diferença? Ele é um espião. Vai tomar tiro. Não tem outra escolha.”
“Eu sei,” eu disse. “Mas faz diferença.”
“Como queiras, hombre. Como queiras. Quando nos vemos?”
“Almoço amanhã. Temos alguma carne.”
“E antes whisky. Bem, hombre, bem.”
“Salud, Pepe, e muito obrigado.”
“Salud, Enrique. Não foi nada. Salud.”
Era uma voz estranha e morbida e nunca me habituei a ouvi-la, mas ao subir as escadas, me senti bem melhor.
Todos nós velhos clientes do Chicote’s tínhamos um sentimento pelo lugar. Eu sabia que era por isso que o Luis Delgado tinha sido louco a ponto de voltar lá. Ele poderia ter tocado suas coisas em outro canto. Mas se ele estivesse em Madrid, tinha de ir lá. Ele fora um bom cliente como dissera o garcon e nós éramos amigos. Certamente quaisquer pequenos atos de bondade que se possa fazer na vida valem à pena. Por isso fiquei feliz de ter ligado para o meu amigo Pepe na sede da Seguridad porque Luis Delgado era um velho cliente do Chicote’s e eu não queria que ele ficasse desiludido ou magoado com o garcon de lá antes de morrer.
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